quinta-feira, 26 de março de 2015

SERÁ QUE A NOSSA ARTE CORRESPONDE AOS DESAFIOS DE NOSSO TEMPO?


Anthony Oliver Scott e um grupo de artistas conversam sobre se e como artistas falam sobre questões sociais e raciais em seus trabalhos. O presente texto é de autoria de Scotta discussão está aqui.
Desde a crise financeira de 2008, Eu tenho esperado por “As vinhas da Ira”. Ou talvez “O Sol tornará a brilhar”, “A morte do caixeiro viajante”, algum romance do Zola ou uma balada de Woody Guthrie – alguma arte que fale sobre as injustiças e preocupações dos nossos tempos e ponha algo de humano nos desenrolares impessoais da história. Os originais ainda estão por aí, disponíveis para serem revividos e redescobertos, parte de uma obra robusta e artística dos difíceis tempos já passados. Mas nós estamos no meio desses tempos difíceis agora e parece que a arte está nos faltando.

Há alguns poucos anos, como outras pessoas, tenho andado preocupado – às vezes ao ponto de estar obcecado, sem dormir, num pavor profundo e em completo desespero – pelo estado econômico do mundo. Gasto mais tempo do que o saudável refletindo sobre o mercado de trabalho global, o salário-mínimo, o aumento da desigualdade, a classe média que está entrando em colapso, Thomas Piketty, Janet Yellen e o PIB de China, Índia e Brasil. Perto de casa, me sinto grato pela minha sorte e preocupado com meus vizinhos, preocupado quanto ao aspecto geral de meus filhos e pelas fronteiras que dividem minha cidade e país.
Estritamente falando, nada disso tem muito a ver com a minha área de especialização profissional, que poderia ser definida razoavelmente como escrever sobre o que as pessoas buscam para escapar de preocupações e ansiedades pessoais. Arte séria e entretenimento popular, em suas mais diversas maneiras, oferecem refúgio e distração. O prazer e conforto que elas proporcionam não são triviais, mas, sim, essenciais. A arte é o domínio dos problemas resolvidos, mesmo se esses problemas forem materiais e as soluções, artificiais.
Mas se a arte, teoricamente, está livre da realidade cruel do trabalho, do necessário e do palpável, a realidade é, no entanto, seu estado bruto e seu contexto. Intencionalmente ou não, artistas, à sua própria maneira, desenham e refazem os fatos da vida que os cerca e a obra resultante tem seu lugar entre esses fatos. O que eu estou chamando, abstrata e grandiosamente, de arte são, na verdade, livros, canções, filmes, jogos, séries de televisão, pinturas, operas e qualquer outra coisa que caia no mercado chamado “cultura”. Os bons são comprados e vendidos, quer seja como objetos físicos, tempo de apreciação ou artefatos digitais. Fazê-los requer trabalho, dinheiro e um mercado que os distribua. O dinheiro pode vir de fundações, do Kickstarter, vendas de varejo ou receitas de publicidade. O comércio entre artista e público é quebrado pela tradicional indústria cultural (editoras, redes de televisão, gravadoras e estúdios de cinema) e também pelas novatas intrometidas como Amazon, Netflix, Google e iTunes. Mas o sistema como um todo, do topo à base, da casa de ópera estadunidense Metropolitan Opera House ao artista de rua do metrô embaixo de suas instalações, não foge da dinâmica que envolve o capital econômico.
E essa economia, por sua vez, define e descarta o que será considerado importante. Ainda que eu respeite os esforços de economistas e sociólogos para explicar o mundo à nossa volta e o empenho de políticos para mudá-lo, devo dizer que confio mais em artistas e escritores. Não necessariamente pelo seu senso ou de justiça ou infalibilidade, ou ainda pela consistência e coerência que venham a apresentar, não por instruir ou por advogar, mas sim pela honestidade e disciplina que possuem para trazer algo novo, para falar a verdade.
Se eu quiser entender os sonhos dos nobres ou os pesadelos dos pobres no começo do século XIX na Inglaterra, me voltarei para Jane Austen e William Blake. O que havia de novo sobre divisões de classe em Paris e Londres pouco mais tarde pode ser encontrado nas páginas de Balzac, Dickens e Zola. A história da Europa, do Renascimento à Primeira Guerra Mundial é, em larga escala, uma história de poder, riqueza e status social. No século XX, filmes, teatro e televisão contam a mesma história: comédia, tragédia, thrillers e farsas. As classes na grande depressão Hollywood foram retratadas desde aventuras com smokings e casacos de pele nas coberturas de Manhattan a manifestações de grevistas. A Broadway do pós-guerra era o reino de Willy Loman e Stanley Kowalski, e a televisão se tornou uma fixação nas casas de classes média, narrando as lutas e aspirações dessas famílias – Os Kramdens, os Conners, os Jeffersons, os Simpsons – tentando alcançar ou manter o status de classe média.
E agora? Devemos procurar pelo que está no alto ou no baixo? Nas sitcoms, ficções científicas com alegorias implícitas ou nos dramas realistas? Em filmes como “Expresso do amanhã”, em que um trem cruza uma paisagem congelada e apocalíptica, um microcosmo da desigualdade global? Na série de televisão “Black-ish”, que discute as contradições entre a mobilidade ascendente numa indecisa América não pós-racial? Em minhas constatações aqui citadas, tenho tentado encontrar uma intersecção contemporânea entre cultura, classes, trabalho e dinheiro. No ano passado e na metade do anterior, escrevi sobre como filmes como “O Grande Gatsby”, “Sem dor, sem ganho” e “Spring Breakers – Garotas perigosas” refletem a nossa ambivalência sobre riqueza e materialismo; sobre como Leonardo DiCaprio se tornou a estrela que personifica essa ambivalência, a gentrificação do Brooklyn, o declínio do culto ao medíocre, a contradição entre o status de trabalho criativo e as condições da classe trabalhadora nos filmes de Jean-Pierre e Luc Dardenne.
Mas eu quero ir além. Quero saber mais sobre a política econômica da arte no presente momento, para pensar sobre como artistas são afetados pelas mudanças de distribuição de renda e definições de trabalho, como o trabalho deles retrata essa mudança. Então decidi perguntar a eles.
Nesse outono, enviei um apelo, seguido por um questionário. Minha intenção era conduzir uma pequena pesquisa sem respaldo científico, mas também avançar numa discussão sobre o que a arte tem feito e deveria fazer nesse momento de impasse político, tensão racial e crise econômica, o que ao mesmo tempo se assemelha a momentos anteriores da história, mas também possui características próprias, intrínsecas ao seu tempo. Minhas questões eram simples e não possuíam nada de novo. A responsabilidade social da arte tem sido tópico de debate desde tempos muito antigos. Mas as respostas que me retornaram – dramaturgos, cineastas, rappers, poetas, contadores de histórias que vêm confrontando diretamente essas questões – testificam a complexidade e urgência que essas perguntas trazem em si. As ideias discutidas – largamente compartilhadas por e-mail, editadas e condensadas para serem postadas aqui – transmitem o senso de uma conversa que sempre há quando artistas e público discutem a relação entre arte e mundo. Tenho esperanças de que o que esses artistas têm a dizer provoque reações de outros artistas, telespectadores e ouvintes.
FONTE: Literatortura

Nenhum comentário:

Postar um comentário