quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A FORMAÇÃO DO TROVADOR


Ossian

Estamos tão acostumados com a televisão, os filmes, os vídeos, o rádio e os jogos de computador que nos esquecemos de que esses entretenimentos só passaram a fazer parte da nossa vida há muito pouco tempo. Antes havia os teatros e, mais antigamente ainda, artistas ambulantes, mascarados e mambembes, prestidigitadores, cantores e dançarinos. Mas, se retrocedermos ainda mais no tempo, até uma época em que não havia muito divertimento, podemos encontrar os contadores de história profissionais, os cantores de rua, os músicos andarilhos e os trovadores - todos eles altamente treinados no uso da imaginação e com talento para compor cenas e imagens por meio da voz e projetá-las na mente dos ouvintes.

Na Idade Média, cada vila, aldeia ou cidadezinha tinha um lorde ou senhor feudal - alguém com terras e/ou um título que morava numa grande propriedade com dormitórios, um refeitório comunitário e uma sala de convivência. Uma vez por ano - com sorte, duas -, um bardo, escaldo ou seannachie (todos eles contadores de histórias, de um modo ou de outro) faziam uma visita.

Vinham muitas vezes acompanhados de um rapaz, um aprendiz, que carregava a harpa e os seus poucos pertences. Essa chegada causava grande alvoroço e em poucos minutos todos já sabiam da novidade.

El Bardo

Esse tipo de visitante em geral era recebido na sede da propriedade. Primeiro lhe ofereciam as melhores iguarias e bebidas da casa, depois água para lavar as mãos e os pés da poeira da estrada. Para aumentar ainda mais a expectativa geral, o recém-chegado podia então dormir até a refeição da noite. O dono da propriedade convidava amigos, vizinhos e familiares e lhes oferecia um banquete, enquanto a plebe se aglomerava num cômodo abafado, acomodando-se onde houvesse lugar.

Por fim, chegava o grande momento. O bardo ficava de pé e perguntava ao anfitrião o que ele gostaria de ouvir: um épico, um conto de batalha e de glória, talvez a história de um mago com poderes de vida e de morte. Talvez uma antiga lenda da região ou, para agradar as damas, um conto romântico de amor não correspondido. A lenda irlandesa Deirdre of the Sor- rows, Tristão e Isolda, Gawain e o Cavaleiro Verde, qualquer uma dessas agradaria. Ou ele podia oferecer uma história nova, contando escândalos e intrigas de Londres, Caerdyffyd ou Dubh-linn.

Escolhida a história, ele tomava da harpa (ou, se o aprendiz fosse sufi-cientemente experiente, acompanhava o mestre); o silêncio reinava na sala lotada. Ao iniciar a história, o calor e a fumaça da lareira, o cheiro acre de suor humano e dos cães, dos furões, da cerveja e do que mais estivesse entre as fendas do assoalho há mais de uma semana, eram logo esquecidos. Quando a voz treinada do bardo começava a tecer o seu encantamento, as paredes se desvaneciam, o vento e o tempo lá fora eram ignorados e as dores e queixas dos mais velhos, deixadas de lado.

O mais provável é que o bardo fosse a única pessoa do grupo que soubesse ler e escrever. Mesmo que não fosse, os poucos livros que havia estariam sem dúvida trancados na biblioteca do convento mais próximo. Essa era uma época em que uma biblioteca de dez ou doze livros fazia com que a fama de um mosteiro corresse solta por toda a região.

Druida

Poucos ouvintes, se é que algum, teriam se distanciado mais do que uns trinta quilômetros do seu local de nascimento. Os donos da propriedade poderiam ter feito a longa e perigosa viagem até Winchester, Salisbury, Canterbury ou até mesmo Londres, mas apenas uma vez na vida. As cruzadas só aconteceriam uns cem anos depois, por isso as terras do Oriente ainda eram praticamente desconhecidas. O barulho, o alvoroço, as paisagens, os sons e os cheiros da cidade eram coisas que essa gente não conhecia. Mas, por meio da magia do bardo, se podia ter um raro vislumbre de outro mundo. A voz mágica, o mistério das palavras e o poder hipnótico da harpa se combinavam para alçar os ouvintes a outro nível de ser. Os nomes dos grandes bardos, trovadores e escaldos, como Taliesin, Amergin, Llewarch Hen of Wales, Senchan, Coipre e Aithirne of Eire, Snorri Stursluson, o mestre do skaldskaparmal (dicção poética dos reinos nórdicos) ainda estão ao alcance daqueles que os pesquisam.

A formação dos bardos levava anos, pois eles eram muito mais do que simples contadores de histórias. Eram guardiães da história do seu tempo e lugar; também ilusionistas e mágicos, tecedores de encantamentos e feitiços. Memória pródiga e presença de espírito davam a eles enorme vantagem sobre os demais. A maior parte do que sabemos sobre esses tempos remotos chegou até nós por meio de seus poemas épicos. Quando aprendizes, eles estudavam Clasarch, um tipo de harpa, Ben shene e Ballach, que compreendiam muitos tipos diferentes de música. Eles podiam fazer rir ou chorar, cantar e dançar ou incitar o espírito para a batalha.
Trovador

Eram necessários doze longos anos para formar um bardo, e depois disso ele ainda precisava ganhar fama - ou não, como às vezes acontecia. Para aqueles que quiserem conhecer mais a fundo esse assunto fascinante, recomendo o ótimo The Bardic Source Book, organizado e compilado por John Matthews e publicado pela Blandford Press. Eu não poupo elogios a esse livro. Na Introdução, o autor escreve: “ [São os] dois polos do verso e da visão que definem os Mistérios Bárdicos. Na verdade, os dois são inseparáveis, uma vez que o verso sem a visão está morto e a própria visão é mais bem expressa em versos. Na realidade, os poetas são um tipo de xamã, que entra no outro mundo por meio do transe e volta com o fruto de suas visões.”

Os escaldos da Escandinávia e os seannachies da Irlanda eram, como os bardos, andarilhos e provedores dos mistérios do verso e da visão supracitados. The Edda, Beowulf and Grendel e o Kalevala são os grandes poemas épicos da Escandinávia; The Mabinogion, The Battle of the Trees, The Gododdin Poems, The Black Book of Carmarthen e The Red Book of Hergest podem, todos eles, trazer à luz a antiga Gales, até mesmo quando lidos em outras línguas.

Ouvimos pela primeira vez sobre os antigos “contos de cavalaria” na França. Tratava-se de canções de gesta (ou “canções de feitos heroicos”), compostas pelos menestréis para bajular os patronos. Muitas vezes a narrativa de uma longa batalha era feita ao longo de várias noites, deixando a platéia em suspense até o episódio seguinte. Não eram canções, no sentido que conhecemos hoje, mas algo mais parecido com cânticos ritmados, com métricas específicas, que levavam os ouvintes a um estado semelhante ao transe, capaz até de provocar visões. Mas não eram só os contos de batalhas e os atos de bravura que interessavam os presentes no grande salão - também era preciso agradar as damas. As cantigas de amor lhes proporcionavam o seu quinhão de entretenimento. Os menestréis e trovadores recebiam pedidos para compor poemas e canções que exaltassem a beleza das formas e do rosto de uma dama. O ideal era que houvesse uma “veneração a distância”. Cortejar a dama em segredo, no coração, mas nunca consumar esse amor. Do contrário a sua pureza seria destruída. A propósito, era assim que se extravasava o excesso de energia nos tempos em que não havia guerra!


Apesar de tudo isso, os trovadores tinham um lado sério. Eles participavam de competições, nas quais disputavam ferozmente pelos melhores versos ou canções. É possível conhecer um pouco de tudo isso por meio da ópera The Mastersinger. No entanto, como os bardos, os escaldos e os sean- nachies, a maior habilidade deles era evocar imagens e cenas na mente dos ouvintes, alçá-los ao mundo da imaginação astral.

Agora, vamos tentar um experimento particular de imaginação astral.

Voltemos no tempo, até uma pequena propriedade saxônica do ano de 783 d.C. Iluminada apenas pelas luzes bruxuleantes das tochas e da lareira, a sala nor-malmente ruidosa está agora silenciosa e calma, com todos os olhares voltados para a figura alta e esguia do bardo de barba branca, enquanto ele caminha lentamente para o centro do cômodo. Ele se volta para os presentes, com os seus olhos penetrantes fitando cada rosto e guardando cada um deles na memória. Ele já observou a qualidade do som no edifício e ajustou o ritmo da respiração para compensar a ressonância extra de que precisará. Quando ergue o seu cajado magistralmente entalhado, todos os olhos o seguem, como ele pretendia. Os fragmentos de cristal encravados na sua superfície refletem as chamas do fogo e servem para focar a mente das pessoas. Com a habilidade ganha pelos anos de experiência, ele começa a povoar as suas mentes com imagens que criou com todo cuidado ao longo dos anos e que agora mantêm a sua própria realidade nos reinos das fadas. Elas verão o que ele quer que vejam, ouvem com atenção extasiada a sua voz, perdidas num mundo que ele está criando especialmente para elas, com nenhum outro pensamento a não ser as imagens moldadas pela voz, o tom e a música de um verdadeiro bardo.

Ainda existem bardos, mas, lamentavelmente, não como os de antigamente. Nos tempos modernos, quem mais perto chegou de um bardo foi Robin Williamson, que, praticamente sozinho, manteve viva a tradição antiga da harpa e da voz. Procure pelos seus CDs e ouça o seu som mágico.

Fonte: Trecho do livro  A Magia das Formas-Pensamento. Editora Pensamento.



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