segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O DOM


Não importa se é uma canção com a voz de Adele, uma poesia de Pessoa ou Drummond, muito menos uma pintura de Dali ou Klee. Quando se ouve, lê ou vê, nota-se que existe algo em comum entre essas pessoas e outras tantas que vivem de arte; elas fazem o que vieram para fazer!

É algo que não se possa descrever, mas apenas sentir. A emoção que a obra transmite não só nos muda, mas também nos afasta das distrações e nos coloca em um momento de profunda inteireza. Somos alimentados, mesmo na nossa alma, justamente porque nos desconecta de tudo que é físico ou material. O interessante é que muitas pessoas não captam exatamente o que o artista queria dizer no momento da criação, mas transporta essa percepção para sua intimidade, sua vida, história e dá a obra um novo sentido. Afinal, como disse Michelangelo, uma obra precisa de quem a crie, mas e principalmente de quem a aprecie, que a julgue bela.
Fico pensando se eles seriam “eleitos” ou se tiveram mesmo determinação para buscarem fazer o seu talento se transformar em trabalho. Há quem diga que todos temos esse dom de fazer algo tão bem feito que faz bem a si e aos demais. Seguidamente ouço histórias de contadores ou engenheiros que tocam em bandas de rock aos finais de semana, de empresários que fazem dos seus jardins ou hortas seu descanso mental nas folgas e outros exemplos, mesmo que para isso cansem muito seu corpo.
Não imagino que todos precisem se tornar famosos, reconhecidos ou mesmo viverem de seu prazer criativo, mas exercê-lo já é suficiente para ajudar a lidar com as preocupações do dia a dia e dessa vida insana a que estamos submetidos.
Parece que o dom comum a todos é o sofrimento, seja lá pelo que for. Teimamos em criar inúmeras condições para nos sentirmos bem e para que isso aconteça não é fácil. Parentes próximos, o trabalho, o relacionamento afetivo e tantas outras situações precisam estar perfeitos para que nos permitamos um sentimento de tranquilidade. Mesmo que essa improbabilidade ocorra, imagino que já vem o medo de que tudo acabe e a preocupação volte.
Pessoas andam pelas ruas em constante conversa com suas preocupações e isso parece bem visível em suas caretas ou mesmo posturas corporais. Pensar demais parece mesmo um inferno, justamente por que não podemos escolher os pensamentos que queremos ter, pois os bons precisamos forçá-los. Já os ruins nos perseguem como uma obsessão. Somos atormentados por nós mesmos e isso seria muito engraçado se não fosse tão trágico.
Religiões e filosofias buscam trazer o conforto com alguma explicação plausível para o inexplicável, com o objetivo de buscarmos algum nexo nessa interminável tempestade de absurdos que ocorrem a cada minuto por todos os lados. Uns dizem que o mundo piorou, mas acho que só temos mais informações e os absurdos de sempre agora são conhecidos em tempo real acrescidos da tecnologia. Tempos atrás ficávamos mais restritos aos que nos rodeavam, em casa, na rua ou na cidade.

O dom de cada um é uma tábua de salvação, um alívio, mesmo que seja pelo tempo em que se está fazendo o que se gosta. Descansarmos dos pensamentos e olharmos tudo com olhos desligados do que acontece que só tem mesmo um sentido de expiação.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

DISCURSO DE WILLIAM FAULKNER


Discurso de William Faulkner quando do recebimento do prêmio Nobel de Literatura de 1949:

"Senhoras e senhores, sinto que este prêmio não foi concedido a mim enquanto homem, mas a meu trabalho — o trabalho de uma vida na angústia e no sofrimento do espírito humano, não pela glória e menos ainda para obter lucro, mas para criar dos materiais do espírito humano algo que não existia antes. Assim, este prêmio está tão somente sob minha custódia. Não será difícil encontrar, para sua parte financeira, um destino condizente com o propósito e significado de sua origem. Mas eu gostaria de fazer o mesmo com esta aclamação também, utilizando este momento como o pináculo a partir do qual posso ser ouvido pelos jovens homens e mulheres já dedicados à mesma agonia e faina, entre os quais já está aquele que um dia estará aqui onde eu estou.

“Nossa tragédia, hoje, é um geral e universal temor físico suportado há tanto tempo que podemos mesmo tocá-lo. Não há mais problemas do espírito. Há somente a questão: quando irão me explodir? Por causa disto, o jovem ou a jovem que hoje escreve tem esquecido os problemas do coração humano em conflito consigo mesmo, os quais por si só fazem a boa literatura, uma vez que apenas sobre isso vale a pena escrever, apenas isso vale a angústia e o sofrimento.

“Ele, o jovem, deve aprendê-los novamente. Ele deve ensinar a si mesmo que o mais fundamental dentre todas as coisas é estar apreensivo; e, tendo ensinado isto a si mesmo, esquecê-lo para sempre, não deixando espaço em seu trabalho senão para as velhas verdades e truísmos do coração, as velhas verdades universais sem as quais qualquer estória torna-se efêmera e condenada — amor e honra e piedade e orgulho e compaixão e sacrifício. Antes que assim o faça, ele labora sob uma maldição. Ele escreve não sobre amor mas sobre luxúria, sobre derrotas em que ninguém perde nada de valor, sobre vitórias sem esperança e, o pior de tudo, sem piedade e compaixão. Sua atribulação não aflige ossos universais, não deixa cicatrizes. Ele escreve não a partir do coração mas das glândulas.

“Até que reaprenda estas coisas, ele irá escrever como se compartisse e observasse o fim do homem. Eu me recuso a aceitar o fim do homem. É bastante cômodo dizer que o homem é imortal simplesmente porque ele irá subsistir: que quando o último tilintar do destino tiver soado e se esvaecido da última rocha inútil suspensa estática no último vermelho e moribundo entardecer, que mesmo então haverá ainda mais um som: sua fraca e inexaurível voz, ainda a falar. Eu me recuso a aceitar isto. Creio que o homem não irá meramente perdurar: ele triunfará. Ele é imortal, não porque dentre as criaturas tem ele uma voz inexaurível, mas porque ele tem uma alma, um espírito capaz de compaixão e sacrifício e resistência. O dever do poeta, do escritor, é escrever sobre essas coisas. É seu privilégio ajudar o homem a resistir erguendo seu coração, recordando-o a coragem e honra e esperança e orgulho e compaixão e piedade e sacrifício que têm sido a glória do seu passado. A voz do poeta necessita ser não meramente o registro e testemunho do homem, ela pode ser uma das escoras, o pilar para ajudá-lo a subsistir e prevalecer."



quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O PÔR DO SOL



O sol, no horizonte se põe.
A escuridão se aproxima,
É o fim de um dia,
De oportunidades e realizações.
Mas vê: É só mais uma estrela para os homens,
Há milhões que nos iluminam.
Deus sabia o que queria
Pois entre tantas, apenas um sol provê toda as vidas.

*AlexMaciel

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

VIDA VAZIA


Vida, vida vazia
Que me aflige, me assola em demasia.
Quero, luto para ser seu senhor
Mas sou teu escravo, todos os dias.

*AlexMaciel

AUTOSSUFUCIENTE


De ti, homem sozinho
Que vive sem com os outros se importar,
Sinto raiva e compaixão.
Raiva pelo caminho:
Não há como sozinho caminhar.
E compaixão pela solidão:
Nunca entenderá o que é amar.

*AlexMaciel

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O SOL

O orvalho gélido, acalentador, seca.
O astro rei brilha, pulsa
Vivifica a terra.
Os elementos, os animais, os homens
Banham-se, renovando-se continuamente.
Tu, mistério da criação
Está por trás de toda a vida
E de toda a morte.
Pai, ilumina a todos 
Ao menos uma vez, para que escolham
Pois a noite chega rápido.

*AlexMaciel

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

AMANHECER


O amanhecer, em todo esplendor
Revela um novo dia, um novo começo.
A agonia noturna deixa a terra
E o sol, rei da luz, renova-se.
Sonhos, projetos, amores, esperanças:
A vida pulsa,
A vida continua!

*AlexMaciel

terça-feira, 2 de setembro de 2014

BREVIEDADE


Hoje, tu, jovem mancebo
Sorri, sonha, vibra, pulsa
E do desconhecido sente medo.
Amanhã, verás que tudo muda:
Tu, teu corpo, os sonhos, a vida e o tempo.
No que te agarras hoje amanhã será vento.
E tu e os outros homens
Serão a terra que o sol consome.

*AlexMaciel

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

ESCURO


Sombras, escuridão!
O que tu esconde?
O que vejo é verdade? Imaginação?
Nem um nem outro!
O que vejo é um reflexo 
Daquilo que me consome:
O medo do escuro
É o medo do que se esconde
No meu coração.

*AlexMaciel

O LAR







O homem adulto
Para quem os anos passaram
Sente sempre conforto
Ao lar familiar retornar.
Pois ele ali nostalgia
Que, em toda a sua vida
Nunca ouve e nunca haverá
Amor, ternura tão puros
Tão desinteressados
E tão sinceros
Como dos Pais.

*AlexMaciel