terça-feira, 23 de dezembro de 2014

DESTINO ESCOLHIDO




“O colonialismo visível te mutila sem disfarce: te proíbe de dizer, te proíbe de fazer, te proíbe de ser.
 O colonialismo invisível, por sua vez, te convence de que a servidão é um destino, e a impotência a tua natureza: te convence de que não se pode dizer, não se pode fazer, não se pode ser”.
                                                   Eduardo Galeano – O livro dos abraços
                                                           
Lutar contra o colonialismo visível é fácil, ele é escrachado e reprime com a força das armas, na maioria das vezes. Já vivemos isso aqui no Brasil e os com mais de 50 perceberam e os mais velhos sentiram na pele. A ordem é  concordar e discordar é ser do contra, não amar, e não querer o bem. Criticar nem pensar e pessoas assim merecem morrer. Recentemente na Coréia do Norte, alguns foram executados por terem sido descobertos vendo novela, coisa que o ditador de plantão não gosta e não acha que seja bom, já que “aliena” as pessoas.
Sempre temos grandes inteligências, doentes é claro, que dizem saber o que é bom para todas as pessoas. São eles que, ao longo dos tempos foram responsáveis pelo nosso super desenvolvimento tecnológico e um quase inexistente desenvolvimento da consciência. Pessoas que elevam sua percepção atingem uma liberdade impossível de ser tirada por quem quer que seja e morrer para um homem livre é mero detalhe, como nos mostra a biografia de Sócrates e Mansoor. Poderíamos falar de tantos outros que fizeram da sua liberdade de pensar, querer e Ser sua vida, atingindo assim a eternidade possível. Dos outros, dos que aprisionam, as lembranças são só as do mal que fizeram e se tornam exemplos do que de pior um ser humano pode fazer com sua inteligência e sensibilidade às avessas.
Mas o colonialismo moderno, fora essas bizarras exceções é mais sutil e, portanto, eficiente. Ele vem pela cultura, pela mídia e pelos olhares de reprovação dos condicionados que não suportam ver o livre ou aspirante à liberdade. Existe uma força terrível que nos impulsiona para voltar ao cativeiro da inconsciência, criticando e fazendo “do que os outros vão pensar” uma chantagem tão grave como se faz com as crianças, quando dizemos que se elas não fizerem o que é “certo” nos farão chorar ou entristecer.
Basta um mínimo de percepção para sentir-se um peixe fora d’agua em meio ao pensamento comum, das metas iguais e das avaliações rasas sobre quem é bom, certo ou referência. Vivemos uma época da vitimização, seja do governo, do destino ou de deus e isso é tão fácil de entender; as pessoas cumprem seu script cultural e esperam, é claro, os resultados. Essa recompensa é sentir-se bem, respeitado e admirado pelos outros, nem que seja por ter um corpo perfeito à custa de privações e mutilações ou alguns bens de consumo, cada vez mais perecíveis pela moda, que são a prova de uma vida de sucesso.
Essa cultura sempre leva aos extremos, onde o sofrimento é inevitável. Negar parte de qualquer coisa é percebê-la pela metade e com a vida esse conceito é mais válido ainda. O “caminho” é do meio, composto por tudo sem nada excluir.
Talvez esses bilhões de dólares investidos por homens e mulheres para manterem sua juventude, criando seres caricatos, pois nada é mais estranho do que uma pessoa de 40  parecendo-se como uma de 20, pode ser uma metáfora de se ganhar mais algum tempo para que a vida faça sentido.
O colonialismo invisível tem feito vítimas em progressão geométrica e a verdadeira epidemia de doenças emocionais como a depressão e a ansiedade é a prova mais cabal disso. Assim, comer, beber, drogar-se e consumir vira o anestésico possível para se continuar no dia a dia absurdo e sem conteúdo. Somos convidados, pelo pensamento dominante, a buscarmos uma resposta externa à evolução interna e é por isso que a angústia coletiva aumenta como a temperatura de uma chaleira no fogo. A ebulição que estamos vivendo está nas estatísticas de cada vez mais casos de doenças originadas desses “escapes” citados acima.
Ninguém se importa, afinal o importante é gerar riqueza, comprar e buscar ser visto como alguém bem-sucedido. Na contra mão dessa maneira de pensar(?), as pessoas percebendo que os remédios, as roupas, músculos, carros, eletrônicos e viagens apenas as anestesiam, começam a buscar alternativas. O problema é que essa busca não é movida pelo amadurecimento de sua percepção, mas pelo aumento do sofrimento e angústia mental que nada faz parar. E quando isso acontece é o de sempre: uma pequena melhora para poder voltar a ser o que era, como se o problema fosse a pessoa e não o contexto onde ela está inserida.
Era melhor que tivéssemos tanques na rua ou uma vigilância nos moldes de Orwell no ótimo “1984”. Nesses momentos, pelo menos aqui no Brasil, tivemos Chico Buarque, Caetano Veloso  e Elis Regina (para citar poucos) a cantar os poemas que nos convidavam a reagir contra a prisão de pensar e ser. O modo “invisível” é tão mais eficiente, pois se traveste de liberdade e o que temos para ouvir na grande massa é o tipo de arte sexualizada que nos retrocede à adolescência e aos prazeres menos sofisticados ou inteligentes.
Ouça, por exemplo, as “dez mais” da parada de sucessos e analise as letras para entender o nível onde estamos. Ir para frente não é automático. Natural e sem esforço é retroceder.
A alienação hoje é muito mais grave, já que é o resultado do que somos, por regressão, diferente do que é claramente imposto goela abaixo.
No final, é como sempre; precisamos chegar ao fundo do poço para percebermos que isso não funciona. Mas como se sabe, as massas têm na ignorância sua natureza e são apenas individualidades, lá e cá, que se elevam acima do comum. Mas assim que isso acontece, vem o medo da solidão e a força que traz para baixo, questionando se a pessoa está sã por pensar diferente.
A revolução que se pede hoje contra a ditadura do status quo, não pede armas ou guerrilhas, mas uma atitude nova de resistência lúcida e manter-se firme contra a correnteza.
Pense e se repense. Avalie para onde o caminho que está sendo trilhado pode levar e qual o final que cada um de nós está escrevendo para sua história.
Não há como alegar a ignorância da lei. Evolutivamente pagamos pelo que fizemos e não fizemos.
Nada está escrito, mas sendo escrito.
Eduardo Carvalho

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

SOFRER


Ama, vive, chora e teme.
Mas não teme o mal ou a Deus,
Teme a não realização dos sonhos teus;
Teme a mediocridade e a sede,
Ou o teu vazio, que por dentro te aniquila.
O medo que sente todos os dias,
Durante o silêncio,
É o medo desta vida
E das tuas tendências sombrias.

Vive-se a vida sofrendo:
Seja real ou antecipadamente;
Porque o Homem adora sofrer,
Adora punir-se sadicamente.
Ele acha-se culpado, indigno,
Sujo pelo amor  à riqueza e ao poder.
Mas, homem! Tu que nesta vida vive,
Não pode ser humano sem ser homem.

*AlexMaciel

MALDADE


De erros e de tristezas
Cheia a vida é.
Nós, humanos, com nossas fraquezas,
Tentamos a salvação pela fé.
Mas, a verdade, a dura verdade
É que por mais que clame piedade
O homem, sempre será imperfeito.
E nem sua fé ou seus feitos,
Que ecoam pelas gerações, o salvam:
Há mais maldade do que bondade
Nos nossos corações.

Resta-nos uma esperança,
Aquela que nos vem da divina herança:
Um pai, que ama seu filho,
Sabendo-o um seu,
Não o puniria no eterno exílio,
Pois o amor é o próprio Deus.

*AlexMaciel

CIDADE


Escura, sombria, baixa, vazia.
Cheia de vida, luz, riso, magia.
Sem cessar... noite e dia, noite e dia.

Os homens, os animais, o amor, a alegria,
A dor, a solidão, a fuligem, a vida,
Os arranhas-céus, os atos, os fatos;
O Limpo, o puro, o belo,
Os becos, a baixaria, o sórdido, a apatia.
O sofrimento que invade, o crime, o sexo,
Os dramas que arrastam,
Sempre... noite e dia, noite e dia.

Linda, bela, pura cidade,
Centenária cidade!
Tu pulsas, tu é a vida!
Um organismo vivo, eterno,
Sem mudar... noite e dia, noite e dia.

Numa sinfonia feroz, selvagem,
Numa guerra interna, sangrenta, sem fim.
Procurando a purificação, a alegria,
A harmonia dos iguais.
Até o fim... noite e dia, noite e dia.

*AlexMaciel

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A FORMAÇÃO DO TROVADOR


Ossian

Estamos tão acostumados com a televisão, os filmes, os vídeos, o rádio e os jogos de computador que nos esquecemos de que esses entretenimentos só passaram a fazer parte da nossa vida há muito pouco tempo. Antes havia os teatros e, mais antigamente ainda, artistas ambulantes, mascarados e mambembes, prestidigitadores, cantores e dançarinos. Mas, se retrocedermos ainda mais no tempo, até uma época em que não havia muito divertimento, podemos encontrar os contadores de história profissionais, os cantores de rua, os músicos andarilhos e os trovadores - todos eles altamente treinados no uso da imaginação e com talento para compor cenas e imagens por meio da voz e projetá-las na mente dos ouvintes.

Na Idade Média, cada vila, aldeia ou cidadezinha tinha um lorde ou senhor feudal - alguém com terras e/ou um título que morava numa grande propriedade com dormitórios, um refeitório comunitário e uma sala de convivência. Uma vez por ano - com sorte, duas -, um bardo, escaldo ou seannachie (todos eles contadores de histórias, de um modo ou de outro) faziam uma visita.

Vinham muitas vezes acompanhados de um rapaz, um aprendiz, que carregava a harpa e os seus poucos pertences. Essa chegada causava grande alvoroço e em poucos minutos todos já sabiam da novidade.

El Bardo

Esse tipo de visitante em geral era recebido na sede da propriedade. Primeiro lhe ofereciam as melhores iguarias e bebidas da casa, depois água para lavar as mãos e os pés da poeira da estrada. Para aumentar ainda mais a expectativa geral, o recém-chegado podia então dormir até a refeição da noite. O dono da propriedade convidava amigos, vizinhos e familiares e lhes oferecia um banquete, enquanto a plebe se aglomerava num cômodo abafado, acomodando-se onde houvesse lugar.

Por fim, chegava o grande momento. O bardo ficava de pé e perguntava ao anfitrião o que ele gostaria de ouvir: um épico, um conto de batalha e de glória, talvez a história de um mago com poderes de vida e de morte. Talvez uma antiga lenda da região ou, para agradar as damas, um conto romântico de amor não correspondido. A lenda irlandesa Deirdre of the Sor- rows, Tristão e Isolda, Gawain e o Cavaleiro Verde, qualquer uma dessas agradaria. Ou ele podia oferecer uma história nova, contando escândalos e intrigas de Londres, Caerdyffyd ou Dubh-linn.

Escolhida a história, ele tomava da harpa (ou, se o aprendiz fosse sufi-cientemente experiente, acompanhava o mestre); o silêncio reinava na sala lotada. Ao iniciar a história, o calor e a fumaça da lareira, o cheiro acre de suor humano e dos cães, dos furões, da cerveja e do que mais estivesse entre as fendas do assoalho há mais de uma semana, eram logo esquecidos. Quando a voz treinada do bardo começava a tecer o seu encantamento, as paredes se desvaneciam, o vento e o tempo lá fora eram ignorados e as dores e queixas dos mais velhos, deixadas de lado.

O mais provável é que o bardo fosse a única pessoa do grupo que soubesse ler e escrever. Mesmo que não fosse, os poucos livros que havia estariam sem dúvida trancados na biblioteca do convento mais próximo. Essa era uma época em que uma biblioteca de dez ou doze livros fazia com que a fama de um mosteiro corresse solta por toda a região.

Druida

Poucos ouvintes, se é que algum, teriam se distanciado mais do que uns trinta quilômetros do seu local de nascimento. Os donos da propriedade poderiam ter feito a longa e perigosa viagem até Winchester, Salisbury, Canterbury ou até mesmo Londres, mas apenas uma vez na vida. As cruzadas só aconteceriam uns cem anos depois, por isso as terras do Oriente ainda eram praticamente desconhecidas. O barulho, o alvoroço, as paisagens, os sons e os cheiros da cidade eram coisas que essa gente não conhecia. Mas, por meio da magia do bardo, se podia ter um raro vislumbre de outro mundo. A voz mágica, o mistério das palavras e o poder hipnótico da harpa se combinavam para alçar os ouvintes a outro nível de ser. Os nomes dos grandes bardos, trovadores e escaldos, como Taliesin, Amergin, Llewarch Hen of Wales, Senchan, Coipre e Aithirne of Eire, Snorri Stursluson, o mestre do skaldskaparmal (dicção poética dos reinos nórdicos) ainda estão ao alcance daqueles que os pesquisam.

A formação dos bardos levava anos, pois eles eram muito mais do que simples contadores de histórias. Eram guardiães da história do seu tempo e lugar; também ilusionistas e mágicos, tecedores de encantamentos e feitiços. Memória pródiga e presença de espírito davam a eles enorme vantagem sobre os demais. A maior parte do que sabemos sobre esses tempos remotos chegou até nós por meio de seus poemas épicos. Quando aprendizes, eles estudavam Clasarch, um tipo de harpa, Ben shene e Ballach, que compreendiam muitos tipos diferentes de música. Eles podiam fazer rir ou chorar, cantar e dançar ou incitar o espírito para a batalha.
Trovador

Eram necessários doze longos anos para formar um bardo, e depois disso ele ainda precisava ganhar fama - ou não, como às vezes acontecia. Para aqueles que quiserem conhecer mais a fundo esse assunto fascinante, recomendo o ótimo The Bardic Source Book, organizado e compilado por John Matthews e publicado pela Blandford Press. Eu não poupo elogios a esse livro. Na Introdução, o autor escreve: “ [São os] dois polos do verso e da visão que definem os Mistérios Bárdicos. Na verdade, os dois são inseparáveis, uma vez que o verso sem a visão está morto e a própria visão é mais bem expressa em versos. Na realidade, os poetas são um tipo de xamã, que entra no outro mundo por meio do transe e volta com o fruto de suas visões.”

Os escaldos da Escandinávia e os seannachies da Irlanda eram, como os bardos, andarilhos e provedores dos mistérios do verso e da visão supracitados. The Edda, Beowulf and Grendel e o Kalevala são os grandes poemas épicos da Escandinávia; The Mabinogion, The Battle of the Trees, The Gododdin Poems, The Black Book of Carmarthen e The Red Book of Hergest podem, todos eles, trazer à luz a antiga Gales, até mesmo quando lidos em outras línguas.

Ouvimos pela primeira vez sobre os antigos “contos de cavalaria” na França. Tratava-se de canções de gesta (ou “canções de feitos heroicos”), compostas pelos menestréis para bajular os patronos. Muitas vezes a narrativa de uma longa batalha era feita ao longo de várias noites, deixando a platéia em suspense até o episódio seguinte. Não eram canções, no sentido que conhecemos hoje, mas algo mais parecido com cânticos ritmados, com métricas específicas, que levavam os ouvintes a um estado semelhante ao transe, capaz até de provocar visões. Mas não eram só os contos de batalhas e os atos de bravura que interessavam os presentes no grande salão - também era preciso agradar as damas. As cantigas de amor lhes proporcionavam o seu quinhão de entretenimento. Os menestréis e trovadores recebiam pedidos para compor poemas e canções que exaltassem a beleza das formas e do rosto de uma dama. O ideal era que houvesse uma “veneração a distância”. Cortejar a dama em segredo, no coração, mas nunca consumar esse amor. Do contrário a sua pureza seria destruída. A propósito, era assim que se extravasava o excesso de energia nos tempos em que não havia guerra!


Apesar de tudo isso, os trovadores tinham um lado sério. Eles participavam de competições, nas quais disputavam ferozmente pelos melhores versos ou canções. É possível conhecer um pouco de tudo isso por meio da ópera The Mastersinger. No entanto, como os bardos, os escaldos e os sean- nachies, a maior habilidade deles era evocar imagens e cenas na mente dos ouvintes, alçá-los ao mundo da imaginação astral.

Agora, vamos tentar um experimento particular de imaginação astral.

Voltemos no tempo, até uma pequena propriedade saxônica do ano de 783 d.C. Iluminada apenas pelas luzes bruxuleantes das tochas e da lareira, a sala nor-malmente ruidosa está agora silenciosa e calma, com todos os olhares voltados para a figura alta e esguia do bardo de barba branca, enquanto ele caminha lentamente para o centro do cômodo. Ele se volta para os presentes, com os seus olhos penetrantes fitando cada rosto e guardando cada um deles na memória. Ele já observou a qualidade do som no edifício e ajustou o ritmo da respiração para compensar a ressonância extra de que precisará. Quando ergue o seu cajado magistralmente entalhado, todos os olhos o seguem, como ele pretendia. Os fragmentos de cristal encravados na sua superfície refletem as chamas do fogo e servem para focar a mente das pessoas. Com a habilidade ganha pelos anos de experiência, ele começa a povoar as suas mentes com imagens que criou com todo cuidado ao longo dos anos e que agora mantêm a sua própria realidade nos reinos das fadas. Elas verão o que ele quer que vejam, ouvem com atenção extasiada a sua voz, perdidas num mundo que ele está criando especialmente para elas, com nenhum outro pensamento a não ser as imagens moldadas pela voz, o tom e a música de um verdadeiro bardo.

Ainda existem bardos, mas, lamentavelmente, não como os de antigamente. Nos tempos modernos, quem mais perto chegou de um bardo foi Robin Williamson, que, praticamente sozinho, manteve viva a tradição antiga da harpa e da voz. Procure pelos seus CDs e ouça o seu som mágico.

Fonte: Trecho do livro  A Magia das Formas-Pensamento. Editora Pensamento.



terça-feira, 14 de outubro de 2014

O AMAR


Essa vida, que rapidamente passa,
Deixa muitas marcas, muitas saudades.
Muitos vivem, crescem, amam, casam
E vão embora, cansados pela idade.

Todos, todos os seres desta terra,
Passam como o vento,  invisível rápido.
Mas, os sentimentos, os momentos desta parcela,
São eternos, pois pelos mesmos são perpetuados.

Uma idade, uma simples geração
Deixa marcas, lembranças, mudanças.
A próxima, a que pesa seu coração,
Reconhece e segue o bom da herança.

Somos pó, poeira interestelar.
O oceano cósmico nos chama!
Mas, apenas aqueles que ouvem seu chamar
Descobrem que, nesta vida, só vive o que ama.

*AlexMaciel

A ESSÊNCIA DA POESIA


"Não aprendi nos livros qualquer receita para a composição de um poema; e não deixarei impresso, por meu turno, nem sequer um conselho, modo ou estilo para que os novos poetas recebam de mim alguma gota de suposta sabedoria. Se narrei neste discurso alguns sucessos do passado, se revivi um nunca esquecido relato nesta ocasião e neste lugar tão diferentes do sucedido, é porque durante a minha vida encontrei sempre em alguma parte a asseveração necessária, a fórmula que me aguardava, não para se endurecer nas minhas palavras, mas para me explicar a mim próprio. 

Encontrei, naquela longa jornada, as doses necessárias para a formação do poema. Ali me foram dadas as contribuições da terra e da alma. E penso que a poesia é uma acção passageira ou solene em que entram em doses medidas a solidão e solidariedade, o sentimento e a acção, a intimidade da própria pessoa, a intimidade do homem e a revelação secreta da Natureza. E penso com não menor fé que tudo se apoia - o homem e a sua sombra, o homem e a sua atitude, o homem e a sua poesia - numa comunidade cada vez mais extensa, num exercício que integrará para sempre em nós a realidade e os sonhos, pois assim os une e confunde.

E digo igualmente que não sei, depois de tantos anos, se aquelas lições que recebi ao cruzar um rio vertiginoso, ao dançar em torno do crânio de uma vaca, ao banhar os pés na água purificadora das mais elevadas regiões, digo que não sei se aquilo saía de mim mesmo para se comunicar depois a muitos outros seres ou era a mensagem que os outros homens me enviavam como exigência ou embrazamento. Não sei se aquilo o vivi ou escrevi, não sei se foram verdade ou poesia, transição ou eternidade, os versos que experimentei naquele momento, as experiências que cantei mais tarde. 


De tudo aquilo, amigos, surge um ensinamento que o poeta deve aprender dos outros homens. Não há solidão inexpugnável. Todos os caminhos conduzem ao mesmo ponto: à comunicação do que somos. E é necessário atravessar a solidão e aspereza, a incomunicação e o silêncio para chegar ao recinto mágico em que podemos dançar com hesitação ou cantar com melancolia, mas nessa dança ou nessa canção acham-se consumados os mais antigos ritos da consciência; da consciência de serem homens e de acreditarem num destino comum. " 


Pablo Neruda, in "Nasci para Nascer" (Discurso na entrega do Prémio Nobel)

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

CERTEZA


Eu, que da vida pouco sei
E que dela pouco vivi,
Sei apenas que, logo partirei
E que, nela, sofri mais do que sorri.

*AlexMaciel

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O DOM


Não importa se é uma canção com a voz de Adele, uma poesia de Pessoa ou Drummond, muito menos uma pintura de Dali ou Klee. Quando se ouve, lê ou vê, nota-se que existe algo em comum entre essas pessoas e outras tantas que vivem de arte; elas fazem o que vieram para fazer!

É algo que não se possa descrever, mas apenas sentir. A emoção que a obra transmite não só nos muda, mas também nos afasta das distrações e nos coloca em um momento de profunda inteireza. Somos alimentados, mesmo na nossa alma, justamente porque nos desconecta de tudo que é físico ou material. O interessante é que muitas pessoas não captam exatamente o que o artista queria dizer no momento da criação, mas transporta essa percepção para sua intimidade, sua vida, história e dá a obra um novo sentido. Afinal, como disse Michelangelo, uma obra precisa de quem a crie, mas e principalmente de quem a aprecie, que a julgue bela.
Fico pensando se eles seriam “eleitos” ou se tiveram mesmo determinação para buscarem fazer o seu talento se transformar em trabalho. Há quem diga que todos temos esse dom de fazer algo tão bem feito que faz bem a si e aos demais. Seguidamente ouço histórias de contadores ou engenheiros que tocam em bandas de rock aos finais de semana, de empresários que fazem dos seus jardins ou hortas seu descanso mental nas folgas e outros exemplos, mesmo que para isso cansem muito seu corpo.
Não imagino que todos precisem se tornar famosos, reconhecidos ou mesmo viverem de seu prazer criativo, mas exercê-lo já é suficiente para ajudar a lidar com as preocupações do dia a dia e dessa vida insana a que estamos submetidos.
Parece que o dom comum a todos é o sofrimento, seja lá pelo que for. Teimamos em criar inúmeras condições para nos sentirmos bem e para que isso aconteça não é fácil. Parentes próximos, o trabalho, o relacionamento afetivo e tantas outras situações precisam estar perfeitos para que nos permitamos um sentimento de tranquilidade. Mesmo que essa improbabilidade ocorra, imagino que já vem o medo de que tudo acabe e a preocupação volte.
Pessoas andam pelas ruas em constante conversa com suas preocupações e isso parece bem visível em suas caretas ou mesmo posturas corporais. Pensar demais parece mesmo um inferno, justamente por que não podemos escolher os pensamentos que queremos ter, pois os bons precisamos forçá-los. Já os ruins nos perseguem como uma obsessão. Somos atormentados por nós mesmos e isso seria muito engraçado se não fosse tão trágico.
Religiões e filosofias buscam trazer o conforto com alguma explicação plausível para o inexplicável, com o objetivo de buscarmos algum nexo nessa interminável tempestade de absurdos que ocorrem a cada minuto por todos os lados. Uns dizem que o mundo piorou, mas acho que só temos mais informações e os absurdos de sempre agora são conhecidos em tempo real acrescidos da tecnologia. Tempos atrás ficávamos mais restritos aos que nos rodeavam, em casa, na rua ou na cidade.

O dom de cada um é uma tábua de salvação, um alívio, mesmo que seja pelo tempo em que se está fazendo o que se gosta. Descansarmos dos pensamentos e olharmos tudo com olhos desligados do que acontece que só tem mesmo um sentido de expiação.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

DISCURSO DE WILLIAM FAULKNER


Discurso de William Faulkner quando do recebimento do prêmio Nobel de Literatura de 1949:

"Senhoras e senhores, sinto que este prêmio não foi concedido a mim enquanto homem, mas a meu trabalho — o trabalho de uma vida na angústia e no sofrimento do espírito humano, não pela glória e menos ainda para obter lucro, mas para criar dos materiais do espírito humano algo que não existia antes. Assim, este prêmio está tão somente sob minha custódia. Não será difícil encontrar, para sua parte financeira, um destino condizente com o propósito e significado de sua origem. Mas eu gostaria de fazer o mesmo com esta aclamação também, utilizando este momento como o pináculo a partir do qual posso ser ouvido pelos jovens homens e mulheres já dedicados à mesma agonia e faina, entre os quais já está aquele que um dia estará aqui onde eu estou.

“Nossa tragédia, hoje, é um geral e universal temor físico suportado há tanto tempo que podemos mesmo tocá-lo. Não há mais problemas do espírito. Há somente a questão: quando irão me explodir? Por causa disto, o jovem ou a jovem que hoje escreve tem esquecido os problemas do coração humano em conflito consigo mesmo, os quais por si só fazem a boa literatura, uma vez que apenas sobre isso vale a pena escrever, apenas isso vale a angústia e o sofrimento.

“Ele, o jovem, deve aprendê-los novamente. Ele deve ensinar a si mesmo que o mais fundamental dentre todas as coisas é estar apreensivo; e, tendo ensinado isto a si mesmo, esquecê-lo para sempre, não deixando espaço em seu trabalho senão para as velhas verdades e truísmos do coração, as velhas verdades universais sem as quais qualquer estória torna-se efêmera e condenada — amor e honra e piedade e orgulho e compaixão e sacrifício. Antes que assim o faça, ele labora sob uma maldição. Ele escreve não sobre amor mas sobre luxúria, sobre derrotas em que ninguém perde nada de valor, sobre vitórias sem esperança e, o pior de tudo, sem piedade e compaixão. Sua atribulação não aflige ossos universais, não deixa cicatrizes. Ele escreve não a partir do coração mas das glândulas.

“Até que reaprenda estas coisas, ele irá escrever como se compartisse e observasse o fim do homem. Eu me recuso a aceitar o fim do homem. É bastante cômodo dizer que o homem é imortal simplesmente porque ele irá subsistir: que quando o último tilintar do destino tiver soado e se esvaecido da última rocha inútil suspensa estática no último vermelho e moribundo entardecer, que mesmo então haverá ainda mais um som: sua fraca e inexaurível voz, ainda a falar. Eu me recuso a aceitar isto. Creio que o homem não irá meramente perdurar: ele triunfará. Ele é imortal, não porque dentre as criaturas tem ele uma voz inexaurível, mas porque ele tem uma alma, um espírito capaz de compaixão e sacrifício e resistência. O dever do poeta, do escritor, é escrever sobre essas coisas. É seu privilégio ajudar o homem a resistir erguendo seu coração, recordando-o a coragem e honra e esperança e orgulho e compaixão e piedade e sacrifício que têm sido a glória do seu passado. A voz do poeta necessita ser não meramente o registro e testemunho do homem, ela pode ser uma das escoras, o pilar para ajudá-lo a subsistir e prevalecer."



quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O PÔR DO SOL



O sol, no horizonte se põe.
A escuridão se aproxima,
É o fim de um dia,
De oportunidades e realizações.
Mas vê: É só mais uma estrela para os homens,
Há milhões que nos iluminam.
Deus sabia o que queria
Pois entre tantas, apenas um sol provê toda as vidas.

*AlexMaciel

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

VIDA VAZIA


Vida, vida vazia
Que me aflige, me assola em demasia.
Quero, luto para ser seu senhor
Mas sou teu escravo, todos os dias.

*AlexMaciel

AUTOSSUFUCIENTE


De ti, homem sozinho
Que vive sem com os outros se importar,
Sinto raiva e compaixão.
Raiva pelo caminho:
Não há como sozinho caminhar.
E compaixão pela solidão:
Nunca entenderá o que é amar.

*AlexMaciel

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O SOL

O orvalho gélido, acalentador, seca.
O astro rei brilha, pulsa
Vivifica a terra.
Os elementos, os animais, os homens
Banham-se, renovando-se continuamente.
Tu, mistério da criação
Está por trás de toda a vida
E de toda a morte.
Pai, ilumina a todos 
Ao menos uma vez, para que escolham
Pois a noite chega rápido.

*AlexMaciel

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

AMANHECER


O amanhecer, em todo esplendor
Revela um novo dia, um novo começo.
A agonia noturna deixa a terra
E o sol, rei da luz, renova-se.
Sonhos, projetos, amores, esperanças:
A vida pulsa,
A vida continua!

*AlexMaciel

terça-feira, 2 de setembro de 2014

BREVIEDADE


Hoje, tu, jovem mancebo
Sorri, sonha, vibra, pulsa
E do desconhecido sente medo.
Amanhã, verás que tudo muda:
Tu, teu corpo, os sonhos, a vida e o tempo.
No que te agarras hoje amanhã será vento.
E tu e os outros homens
Serão a terra que o sol consome.

*AlexMaciel

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

ESCURO


Sombras, escuridão!
O que tu esconde?
O que vejo é verdade? Imaginação?
Nem um nem outro!
O que vejo é um reflexo 
Daquilo que me consome:
O medo do escuro
É o medo do que se esconde
No meu coração.

*AlexMaciel

O LAR







O homem adulto
Para quem os anos passaram
Sente sempre conforto
Ao lar familiar retornar.
Pois ele ali nostalgia
Que, em toda a sua vida
Nunca ouve e nunca haverá
Amor, ternura tão puros
Tão desinteressados
E tão sinceros
Como dos Pais.

*AlexMaciel

quarta-feira, 26 de março de 2014

POESIA INFLUENCIA A VIDA DOS IRANIANOS


A poesia é muito forte no Irã. É interessante observar como os jovens se envolvem com isso e admiram poetas que escreveram suas obras mil anos atrás. A série do Jornal Hoje mostra como é a relação dos iranianos com as palavras.
No Irã existe uma infinidade de monumentos históricos. Afinal, a Pérsia, como o país era conhecido, foi a primeira super potência da história – há uns 2.500 anos. Se a riqueza arquitetônica impressiona, existe também um outro lado, mais original do país.
A palavra “paraíso” tem origem persa e ela é ligada a ideia de jardim. O apreço, a beleza, a harmonia e a paz que a natureza traz, sempre foi algo muito importante para os iranianos.
O Irã é um país apaixonado por poesia. Poetas que escreveram suas obras há mil, 800, 700 anos, ainda são reverenciados. É como se cada verso tocasse o coração, a vida de cada iraniano. E de todos, o mais popular é Hafez.
O poeta nasceu em 1.320. Hafez era crítico com os poderosos, mas falava também de paixões não correspondidas, das esperanças e desilusões de cada dia.
Com um livro na mão, um poema na cabeça, os iranianos desde crianças aprendem a aprender com seus poetas. Isso parece que vai enriquecendo um mundo interior, mas se engana quem acha que a poesia é só contemplativa.
Parece esporte, ginástica, luta. Zurkhaneh quer dizer ‘casa da força’ e é muito mais do que isso. Em sua origem, cerca de dois mil anos, tem algo de treinamento para guerreiros, mas mistura reza, ritmo, música e, principalmente, poesia, que é recitada o tempo todo.
O Zurkhaneh é como uma atividade física, mas mostra bem o que chamamos de força mental, porque de certa forma a poesia e o ritmo dão uma força para eles. O que explica também que o perfil do praticante está longe de ser o de uma academia normal. Embora o nível de exigência física seja brutal.
Parte dos movimentos, quando eles parecem helicópteros humanos, girando sem parar, vem do sufismo, uma corrente do islamismo que era muito popular com os poetas iranianos.
Historicamente praticantes do Zurkhaneh, espontaneamente ou contratados, foram para as ruas e ajudaram em manifestações que derrubaram governos. A revolução iraniana começou com um sarau. Foram 10 dias de recitais de poesia que se transformaram em protesto. O Irã, se sente bem a força das palavras.

FONTE: Jornal Hoje

terça-feira, 11 de março de 2014

LEITURA DE AUTORES CLÁSSICOS ESTIMULA O CÉREBRO, DIZ ESTUDO


Lord Byron

Resultado revela que atividade cerebral 'dispara' com semântica complexa.
Pesquisa também sugere que poesia é mais eficaz que livros de autoajuda.



Um estudo da Universidade de Liverpool, no Reino Unido, divulgado nesta terça-feira (15), sugere que ler autores clássicos, como Shakespeare e T.S. Eliot, estimula a mente. Além disso, a pesquisa conclui que a poesia pode ser mais eficaz em tratamentos do que livros de autoajuda.

Especialistas em ciência, psicologia e literatura inglesa da universidade monitoraram a atividade cerebral de 30 voluntários que leram primeiro trechos de textos clássicos. Em seguidas, leram esses mesmos parágrafos traduzidos para a linguagem coloquial.

Os resultados, que serão apresentados esta semana em uma conferência, foram antecipados pelo jornal britânico "Daily Telegraph".

De acordo com a publicação, os resultados mostram que a atividade do cérebro "dispara" quando o leitor encontra palavras incomuns ou frases com uma estrutura semântica complexa, mas não há reação quando o mesmo conteúdo é expresso em linguagem coloquial, com fórmulas de uso cotidiano.
Esses estímulos se mantêm durante um tempo, potencializando a atenção do indivíduo, segundo o estudo, que usou textos de autores ingleses como Henry Vaughan, John Donne, Elizabeth Barrett Browning e Philip Larkin.

Os especialistas descobriram ainda que a poesia "é mais útil que os livros de autoajuda", já que atinge o lado direito do cérebro – onde são armazenadas as lembranças autobiográficas – e ajuda a refletir sobre as memórias e entendê-las sob outra perspectiva.

"A poesia não é só uma questão de estilo. A descrição profunda de experiências acrescenta elementos emocionais e biográficos ao conhecimento cognitivo que já possuímos de nossas lembranças", explica o professor Philip David, que vai apresentar o estudo.

Os especialistas buscam compreender agora como a atividade cerebral foi afetada pelas contínuas revisões de alguns clássicos da literatura que buscam adaptá-los à linguagem atual, como é o caso das obras de Charles Dickens.

FONTE:  G1

sexta-feira, 7 de março de 2014

O VERDADEIRO RENUNCIANTE



É comum no caminho do místico ouvir (diversas vezes) “você tem que aproveitar a vida”, “você tem que viver”, entre outros, sempre atrelados a um convite para farrar. Enquanto algumas culturas (para citar, Indiana e Tibetana) tem um profundo respeito pelos “renunciantes” a nossa por outro lado parece não entender muito bem como alguém pode desdenhar de sexo, fama, dinheiro e poder.

Com o pouco de experiência que tenho estava a refletir sobre isso e percebi que as maravilhas do caminho espiritual são muito mais elevadas do que os prazeres temporais do nosso mundo carnal.
Renunciante é quem abdica da sua herança divina para brincar um carnaval aqui e pular uma micareta acolá.
Renunciante é quem troca as maravilhas do amor universal, para amar uma pessoa só (de vez em quando uma hoje e outra amanhã).
Renunciante é quem troca o êxtase sagrado por uma droga que vai te consumir na mesma medida que você a consumiu,
Renunciante é quem prefere o vício a virtude.
E por fim, aquele que verdadeiramente renuncia é quem por força de um apego decide encarnar, sem recordar qualquer conhecimento de si, principalmente a lembrança da verdadeira origem.
Logo meus irmãos, eles são os verdadeiros renunciantes e os ditos “renunciantes”, ao contrário do que os ignorantes pensam, estão em busca do seu direito, estão em busca de um tesouro muito maior que a fortuna de Bill Gates.
Dito isso deixo claro que não acredito que ir para um monastério ou uma caverna é o único meio de buscar união com Deus. Em virtude da sociedade que vivemos e dependendo do estágio dos hormônios no seu corpo você pode apreciar um ou outro luxo sem demérito da sua evolução, contudo lembre-se das suas prioridades sempre.
“Em tudo isso, não há pecado – há apenas uma questão de disciplina – mas a nossa meta não é apenas não ter pecados, mas ser Deus” (Plotino)
Sejam Vitoriosos!
Texto de Aurílio, um dos autores do blog O Alvorecer