sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

SEM VASELINA


Ballerina in a Death's Head - Salvador Dali
Os evangélicos há décadas temem e desejam - no fundo de suas fervorosas almas - que o apocalipse aconteça logo. Desta forma eles poderiam apontar seus dedos acusadores aos hereges e incrédulos no tal “Dia do Juízo Final” e rir à beça. Há décadas “o mundo vai acabar no mês que vem”. Há décadas isso tem justificado grupos de orações e a insistência dos fiéis em “salvar” o povo que vive desgarrado do tal Jeová. 

A esta altura sei muitos ergueram suas sobrancelhas, mas fato é que desde que a humanidade existe, o apocalipse sempre foi um tema de interesse unânime entre crentes no tal Jeová-e-outros-deuses ou crentes na tal ciência-deus-é-máquina. 

As formas variam, e vou enumerar algumas sem me preocupar em ter me esquecido de outras: 
1) Catástrofes naturais sejam terrenas (as que o planeta sempre teve, mas em maior escala), galácticas (astros celestes explodindo, outras formações tocando a Terra, desvio de órbita, etc) 
2) Catástrofes biológicas (naturais, manipuladas e evolutivas) 
3) Erro humano (alguma super-bomba nuclear ou algo que provoque o desencadeamento de uma sequência mortal de eventos). 
4) Não podemos nos esquecer daqueles que acreditam que deidades das mais variadas que descem para resgatar seu povo, das deidades que vêem para matar todo mundo e poupar seu povo 
5) O mesmo se aplica para extra-terrestres. 

Alguns querem permanecer na terra, outros querem ir para algum outro planeta mais avançado ou um paraíso de árvores, gula justificada (e às vezes rolando ainda alguma sacanagem com virgens). Todos estes deuses e extra-terrestres são perfeitamente validados com profetas, mensageiros ou cientistas, com seus códices e códigos, teses e sistemas de medição. 

Há a galera que se prepara (os tais “Preppers”, preparados para o apocalipse), monta bunkers, estoca comida e aposta em algum pós-apocalipse terreno “confortável”, outros acham que devem se preparar orando. Outros, mais pessimistas, simplesmente meneiam a cabeça e aceitam passivamente a destruição certa. 

É lógico que existem aqueles que não pensam sobre isso e nem falam sobre isso porque nunca pensaram a respeito. Outros pensam a respeito, mas acham que isso pode esperar para um amanhã que nunca chega. Coisa para seus bisnetos se preocuparem. 

A idéia humana de “Fim de Mundo” tem encontrado voz nossa cultura através dos filmes e livros, em grandes sucessos disseminados com um clique do mouse ou do controle remoto. Tem até quem acredite em zumbis ou outras teorias parvas. 

Mas o ponto que quero chegar mesmo é que apesar da grande maioria admitir que tenha medo do apocalipse, o medo real que elas têm é o medo de morrer, pois a morte, pelo menos até agora, é inevitável. E mesmo sabendo que podem morrer amanhã, morrerão sem ter vivido esta jornada curta e maravilhosa que é a vida, correndo atrás de alguma meta que nunca chega ou que nem vale a pena tanto assim. Morrem de medo de viverem exatamente como querem, muitas vezes despendendo suas vidas em ocupações e empregos que odeiam, morando onde odeiam, com pessoas que odeiam. 

E eu acabei tocando no ódio, e não posso falar de ódio sem falar de medo. Isso porque o ódio é subproduto do medo, e no fundo, medo é o que todo mundo sente. Medo de morrer sem ter vivido, medo de ser menos que o outro, medo de ser rejeitado, medo da solidão, medo de passar fome, medo de passar por qualquer necessidade, medo de apanhar, medo de vencer, medo de chegar lá, medo da responsabilidade, medo de não ser perfeito, medo de ser culpado, medo de aceitar o novo, medo de aceitar o diferente, medo que o ontem volte e medo de amanhã... mas já reparou que todos estes medos podem ser resumidos em medo de viver?

Tantos medos para conseguir fechar ciclos e transformar a vida... Tantos medos para justificar sua necessidade de consolo, religioso ou científico... Tantos medos por trás dos tantos ódios... 

Seu medo é o que tenta impedir os outros de viverem como querem, é o seu medo que tenta impedir a crença em qualquer outra coisa. Seu medo de viver a sua vida é o que te faz odiar a vida dos outros, as escolhas dos outros, a felicidade dos outros. É o seu medo que faz com que você meça aos outros - cada grama, centímetro ou pecadinho - com a medida mais confortável ao seu grau medo. Quanto maior a sua rigidez, maior é seu medo.

Numa sociedade sustentada pelo medo, de galinhas acuadas no canto do galinheiro, leis são criadas para impedir com que os outros vivam alguma liberdade em suas pequeninas vidas. Modas e valores são rigidamente transformados em regras e caixas para que cada um de nós tenha que caber. 

Hoje é “errado” ser hétero (e declarar isso), é “errado” ser contrária ao feminismo radical, é “errado” estar gordinho, feinho ou pobrezinho. Hoje é “errado” ser discreto sexualmente, é “errado” viver a vida de papo para o ar (porque as pessoas automaticamente acham que você não merece). É “errado” se tatuar, se intoxicar e viver “La Vida Loca”. É “errado” trepar gostoso, do seu jeito mais sacana. É “errado” gostar de meninos e meninas. É “errado” criar seus filhos da forma você acredita ser a melhor. E finalmente que é “errado” falar no quanto isso está errado, porque este é o discurso errado e vai mexer com o medo de todo mundo. E o povo quando está com medo se retorce e odeia, e te xinga e cospe na cara. Isso é verdade desde que o mundo é mundo. 

Mesmo que não possamos prever quem morre amanhã ou na semana que vem, a sociedade sempre acha que pode interferir e te conformar de acordo com as regras da manada. 

E você, já caiu na lenda do que você supostamente TEM que ser? Que você supostamente precisa TER para ser? Que você supostamente é livre dentro do sistema? Que seu cocô supostamente tenha que ser molinho? Comente.

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